A madrugada desta sexta-feira, 29 de maio, marcou o fim de uma era para a cultura do Rio Grande do Sul. Com o falecimento do cantor e compositor Pedro Ortaça, aos 83 anos, em Ijuí, silencia-se a última voz viva do quarteto que revolucionou a música nativista: os Troncos Missioneiros.
Muito além de um intérprete, Ortaça foi o guardião de uma identidade forjada no pampa, no respeito aos povos originários e na exaltação da terra vermelha das Missões. O cantor deixa a esposa, Rose, três filhos — Gabriel, Marianita e Alberto — e netos.
A Despedida após Anos de Luta pela Saúde
A morte foi confirmada por sua filha, Marianita Ortaça, nas redes sociais. Nos últimos anos, o músico vinha travando uma batalha resiliente contra diversos problemas de saúde. Ele enfrentou episódios de pneumonia, passou por uma cirurgia de ponte de safena no final de 2021 e, no ano passado, sofreu a amputação de uma das pernas.
Em março de 2025, Ortaça e a família mudaram-se para Ijuí para que ele pudesse realizar tratamento de diálise. Em janeiro deste ano, chegou a ser internado por um edema pulmonar. A causa final do falecimento decorreu de complicações após uma nova cirurgia de amputação; o artista sofreu uma parada cardiorrespiratória no início da madrugada e outras duas por volta das 4h, na UTI.
O velório ocorrerá em Ijuí, e também está prevista uma cerimônia em São Luiz Gonzaga, sua terra natal, para que a comunidade missioneira possa prestar as últimas homenagens.
A Infância no Pontão e o Despertar do Dom
Pedro Marques Ortaça nasceu no Pontão de Santa Maria, primeiro distrito de São Luiz Gonzaga, em 29 de junho de 1942. A música estava no sangue: o avô, Quintino Martins dos Santos, era gaiteiro, e os pais "arranhavam" a cordeona e o violão no galpão.
Foi na infância que Pedro espiou pelas frestas da parede o baile de vizinhos que inspiraria um de seus maiores sucessos: a Bailanta do Tibúrcio.
"Os pais colocavam as crianças para dormir em um quartinho, enquanto ficavam confraternizando. Mas eu sentia tanta curiosidade, que espiava pelas frestas da parede. Olhava aquele baile e a música tomando conta do salão e me inspirava", relembrou em entrevista à Zero Hora em 2023.
O guri que começou a cantar timidamente no Colégio Senador Pinheiro Machado se criou trabalhando. Aos 15 anos, partiu para São Borja para trabalhar em uma granja de arroz. Nos galpões das arrozeiras, convivendo com peões de todos os rincões, o dom despertou naturalmente. Sem estudos formais de música, desenvolveu-se nas canchas de bocha, nos fogos de chão e escutando os mais velhos.
O Manifesto dos Troncos Missioneiros
Ao lado de gigantes como Jayme Caetano Braun, Noel Guarany e Cenair Maicá, Pedro ajudou a moldar o gênero missioneiro nas últimas décadas do século XX. A união do quarteto foi eternizada no disco Troncos Missioneiros (1988), embora a amizade e a cumplicidade entre eles já fossem consolidadas pelo respeito mútuo: "Um confiava no outro, um defendia o outro", dizia Pedro.Juntos, eles viraram a música regionalista do avesso. Enquanto a maioria das canções da época versava apenas sobre bailes e os senhores da terra, os Troncos trouxeram o protesto e o compromisso social:
A voz dos oprimidos: Ortaça deu voz aos guaranis, aos negros e aos pobres.
Justiça social: Usava sua arte para criticar as ambições do mundo. Defendia que os milhões gastos em armas nas grandes guerras mundiais deveriam ser usados para alimentar o povo.
Espaço na mídia: Além dos palcos, espalhou essa filosofia apresentando o programa Orgulho Gaúcho, aos domingos, na Rádio Missioneira.
Reconhecimento e o Acorde Final
A relevância de Pedro Ortaça foi amplamente reconhecida pelo Estado e pelo país. Ele recebeu o Prêmio Vitor Mateus Teixeira (2006) como melhor cantor do ano, a Medalha do Mérito Farroupilha (2010), foi eleito Personalidade do Século em São Luiz Gonzaga e condecorado como Mestre das Culturas Populares Brasileiras pelo Ministério da Cultura. Mais recentemente, foi o grande Patrono dos Festejos Farroupilhas de 2024 e, em abril de 2025, recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).
Mesmo diminuindo o ritmo dos shows nos últimos anos, Pedro nunca parou de compor. Em agosto do ano passado, lançou sua última gravação, "Pena Guarany", em parceria com o filho Gabriel. A canção foi feita sob medida para homenagear os 400 anos do início das Missões Jesuíticas no Rio Grande do Sul (1626–2026).
Subir ao palco era o combustível de Pedro.
Como ele mesmo descreveu:
"Às vezes, chego ao palco meio abichornado. Mas daí sinto aquele povo que sempre senti na minha vida, com todo carinho e aplauso. Saber que estão aplaudindo a música que faço, a causa que eu defendo, me faz crescer no palco. E canto tudo que tenho que cantar."
Coincidência ou destino, o artista partiu justamente no ano do quarto centenário missioneiro. O timbre de galo silenciou e o último tronco tombou, mas suas raízes continuam profundamente enterradas e vivas no solo gaúcho.