Na manhã desta sexta-feira (19), a Rádio Fronteira Missões entrevistou no programa Conversa aberta Cátia Valente, que é a matereotogista da emissora há mais de 18 anos e que também atua junto à Defesa Civil do Estado.
A especialista explicou as dinâmicas do fenômeno El Niño, desmistificou boatos que circulam nas redes sociais e trouxe alertas importantes para a comunidade e para os produtores rurais da região.
Com a confirmação recente do fenômeno pela NOAA (Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos EUA), o aquecimento das águas do Oceano Pacífico tem avançado de forma extremamente rápida. Cátia explicou que o fenômeno, atualmente considerado fraco, deve evoluir para moderado em julho e atingir forte intensidade entre agosto e setembro, estendendo-se ao longo da primavera.
O Papel do Atlântico e os riscos de eventos extremos
Um dos pontos centrais explicados pela meteorologista foi a combinação do El Niño com o aquecimento do Oceano Atlântico na costa sul do Brasil.
"O Pacífico dita as regras globais, mas o Atlântico alimenta as frentes frias com calor e umidade. Com o El Niño de forte intensidade, o risco de eventos extremos como chuvas intensas, tempestades, granizo e inundações praticamente dobra", alertou Cátia.
Apesar do cenário preocupante, a especialista rechaçou termos sensacionalistas como "Super El Niño" ou "El Niño Godzilla", reforçando que os impactos reais dependem de fenômenos de curto prazo.
"Não há como prever uma enchente com meses de antecedência. Quem afirma isso não tem base científica. A previsibilidade de frentes frias e ciclones é de três a dez dias. O papel da meteorologia séria é desenhar o cenário para que haja prevenção", ponderou.
O Mito do "Bolsão de Seca" nas Missões
Questionada sobre a percepção local de que a região que abrange de São Luiz Gonzaga a São Borja sofre com menos chuva (uma espécie de "bolsão"), Cátia esclareceu que não se trata de chover menos, mas sim de uma irregularidade na distribuição. Em anos de normalidade ou de La Niña, as frentes frias passam de forma mais oceânica, atingindo o leste do Estado e afetando menos o oeste e o noroeste. Já sob o efeito do El Niño, a umidade vinda da Amazônia entra justamente pelo oeste, mudando esse comportamento e trazendo chuvas mais frequentes.
Alerta para o Agro: Inverno menos frio e redução no trigo
O avanço do El Niño já causa forte impacto no planejamento dos produtores locais. Diante das previsões de alta umidade, muitos agricultores da região estão reduzindo a área plantada de trigo, temendo perdas severas na lavoura.
Cátia confirmou que a preocupação é legítima. Embora o inverno tenha começado com dias gelados, a tendência a partir de julho é de um inverno mais ameno e muito úmido. Como as culturas de inverno dependem de um número específico de horas de frio para se desenvolverem plenamente, o excesso de umidade e a falta de geadas regulares prejudicam o potencial produtivo.
Prevenção e Credibilidade
Ao final da entrevista, tanto os apresentadores quanto a convidada reforçaram que a palavra de ordem para os municípios e cidadãos é prevenção — desde a limpeza de bueiros e estradas pelas secretarias municipais até a contratação de seguros agrícolas pelos produtores e munícipes. Cátia também fez um apelo para que a população se cadastre no sistema de alertas por SMS da Defesa Civil Estadual.
"A Defesa Civil não prevê tempo normal, ela prevê risco. Se o alerta for emitido e o evento não acontecer, ótimo. Mas se acontecer, a população estará protegida. Não trabalho por 'likes', trabalho com responsabilidade e informação de credibilidade", finalizou a meteorologista.