Na manhã desta segunda-feira (31), o produtor rural e comentarista Vlads Paim Miranda concedeu uma entrevista exclusiva diretamente do Parque de Exposições Assis Brasil, em Esteio (RS), onde participa da Expointer 2026 como expositor. Em um diálogo detalhado sobre os primeiros dias do evento, Vlads traça um panorama sobre a movimentação de público, os custos operacionais da feira e as perspectivas promissoras para a ovinocultura no Rio Grande do Sul.
Percepção do público e custos operacionais
Apesar da expectativa oficial dos organizadores de registrar público-recorde nesta edição, a percepção de quem está no chão da feira indica um ritmo mais moderado. Com 30 anos de experiência na Expointer, Vlads ressalta que o fluxo de visitantes, especialmente nos pavilhões de animais, tem ficado aquém do registrado em anos anteriores.
"Mesmo sem dias limitadores por razões climáticas no final de semana, o público está muito aquém do que vimos em outras edições. Não registramos tumultos nos pavilhões de animais, o que mostra um evento grande, mas sem aquele superpúblico tradicional", destaca o produtor.
Um dos fatores apontados para essa desaceleração é o alto custo para o visitante e para as famílias. A combinação entre os valores cobrados pelo estacionamento (R$ 80,00) e os ingressos individuais (R$ 22,00) pode elevar o custo inicial de acesso a R$ 140,00 para uma família tradicional, sem considerar gastos com alimentação e consumo interno.
O cenário de custos elevados também reflete na presença das empresas expositoras. Nota-se a redução no tamanho de estandes no setor de máquinas e a ausência de estruturas fixas de marcas de médio porte, cujos representantes optaram por circular pelo parque para prospectar clientes sem arcar com a locação dos espaços.
Crescimento na presença de animais e otimismo na Ovinocultura
Se por um lado o público geral apresenta retração, por outro, a presença de animais nas pistas e galpões registra crescimento expressivo:
Pequenos animais (aves e passarinhos): alta de 36%;
Bovinos rústicos (julgamento de campo/trio): crescimento de 14%;
Animais de argola: acréscimo de 12%.
Na ovinocultura, o número de inscritos alcança a marca de 972 animais (com 946 admitidos). O dado mais relevante, segundo Vlads, é a presença marcante de novos expositores, sinal claro de revitalização e interesse renovado na atividade.
A demanda aquecida pela carne ovina — com projeção de preços entre R$ 18,00 e R$ 20,00 o quilo para o cordeiro — consolida um momento de prosperidade comercial para o setor produtor.
Aceleração do mercado da lã e o modelo uruguaio
Um dos pontos centrais da entrevista aborda a valorização da lã e o trabalho de integração com o mercado do Uruguai. Na próxima quarta-feira, a feira sediará o tradicional concurso "Melhor Velo Industrial", promovido em parceria com técnicos uruguaios que avaliam quesitos como finura, comprimento de mecha, rendimento ao lavado e coloração das fibras.
A disparidade de preços entre o produto convencional e o produto padronizado reforça a importância da organização da cadeia produtiva: enquanto a lã comercializada sem padronização atinge valores modestos no mercado regional (R$ 8,00 a R$ 14,00 o quilo), a lã que atende aos padrões de qualidade exigidos pelo mercado internacional atinge cotações expressivas, chegando a equivaler em dólares aos valores nominais locais.
Para capturar essa agregação de valor, iniciativas de capacitação em tosquia e acondicionamento correto da lã — como os cursos promovidos em parceria com o Senar e a Arco — buscam preparar os produtores da região das Missões para atender aos exigentes padrões de exportação.
Rompimento de barreiras de mercado
Ao projetar os próximos dias da Expointer 2026, Vlads enfatiza que seu objetivo à frente da atividade vai além da participação em pistas de julgamento: busca-se romper assimetrias regionais de preço para o reprodutor ovino das Missões, equiparando a valorização dos animais locais aos patamares praticados nas regiões de Fronteira e Campanha.
Uma transmissão ao vivo com especialistas e técnicos uruguaios está prevista para a manhã de quarta-feira, diretamente dos pavilhões de esquila, para detalhar ao público as exigências e oportunidades do mercado global de lã e carne.