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Apesar da alta do petróleo, reajuste da Petrobras no diesel tende a ser mínimo, projetam analistas
10/03/2026 11:13
Estatal não antecipa decisões, mas destaca política que visa proteger mercado de oscilações no mercado externo
Foto: imagem gerada por IA

Um dos principais efeitos econômicos da guerra no Oriente Médio tem sido a disparada no preço do barril de petróleo Brent, o que afeta o comércio internacional de combustíveis e toda a cadeia logística global. A alta do custo do produto gera expectativa de encarecimento da gasolina e do diesel também no Brasil.

Por enquanto, a Petrobras, estatal que domina o setor de combustíveis brasileiro, ainda não deu sinais concretos de que fará reajustes. Procurada pela reportagem, a empresa afirmou, em nota, que "por questões concorrenciais, não antecipa decisões sobre manutenção ou reajustes de preços".

A petroleira destaca que sua estratégia visa reduzir "a transmissão imediata das variações internacionais para o mercado brasileiro, garantindo maior previsibilidade e segurança, protegendo nossos clientes de oscilações abruptas que se originam fora do país" (veja a íntegra da manifestação ao final da reportagem). Desde 2023 a empresa não segue mais a política de paridade internacional de preços do petróleo.
 

Nesta segunda-feira (9), o preço do barril de petróleo chegou perto de US$ 120, consolidando a disparada desde o início da guerra no Oriente Médio. No fim do dia, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, projetou que o conflito pode estar perto do fim e acalmou o mercado. Às 18h, o barril do Brent era cotado a US$ 88,70.

Nos 10 dias desde os ataques dos EUA ao Irã, o petróleo acumula alta acima de 20%, o que criou uma defasagem entre o custo internacional do produto e os preços praticados pela Petrobras no Brasil. Segundo a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), o atual contexto daria margem para a estatal brasileira aumentar em R$ 1,22 o litro da gasolina e R$ 2,74 o litro do diesel no país. Conforme o presidente da associação, Sergio Araújo, cerca de 15% da gasolina e 30% do diesel consumidos no Brasil vêm de importações.

— O Brasil depende da importação de combustível, principalmente em relação ao diesel, por causa da nossa capacidade de refino, e como os preços no mercado externo estão muito mais altos, essa importação está praticamente parada. É necessário que haja um ajuste nos preços internos praticados pela Petrobras, para compensar pelo menos parte desta defasagem, para que não haja descompassos no abastecimento. Por enquanto, o momento é de incerteza no mercado — afirma Araújo.

Em entrevista coletiva realizada na última sexta-feira (6), a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, afirmou que a empresa segue monitorando o cenário internacional, mas que ainda não há uma previsão concreta de reajuste dos preços praticados internamente.

— Nossa política segue sólida. Observamos as paridades internacionais de petróleo sem repassar as volatilidades para o mercado interno — destacou.
 

Contudo, Chambriard acrescentou que o posicionamento da empresa poderá mudar caso o preço do barril de petróleo se mantenha em patamar elevado pelas próximas semanas.

— Se essa subida for consistente, ela exigirá respostas mais rápidas — complementou.

Reajuste deverá ser mínimo, projetam especialistas

Mesmo com a pressão provocada pelos preços do mercado internacional e apoiada pelos importadores de combustíveis do Brasil, o reajuste da Petrobras, "se e quando vier", tende a não ser proporcional à variação no preço do petróleo externamente, projetam alguns analistas do setor.

— A atual gestão da Petrobras tem adotado essa postura de monitorar as oscilações do mercado e esperar tendências claras e contínuas de aumento ou queda nos preços para então também tomar alguma ação. É difícil saber o que a empresa vai fazer de fato, mas arrisco prever que, nos próximos dias, o que a Petrobras pode a vir fazer, no máximo, é um pequeno reajuste, nada muito significativo, nem perto do que está a disparidade com o mercado internacional, até porque o momento é de queda no consumo do diesel no Brasil e no Rio Grande do Sul — afirma o economista-chefe da consultoria ES Petro, Edson Silva.

Projeção similar faz o presidente do Sulpetro, João Carlos Dal'Aqua:

— A Petrobras tem reforçado que não repassa flutuações imediatas, mas acredito que alguma sinalização deve vir nos próximos dias. De qualquer forma, acredito que o valor desse reajuste não vá ser tão significativo, deve ficar distante da defasagem com o mercado internacional — reforça.

Preocupação com inflação

O aumento do preço dos combustíveis no mercado interno também traz implicações ao cenário macroeconômico brasileiro. Essa elevação costuma ter efeito direto sobre a inflação, já que o preço dos combustíveis tem peso relevante no índice oficial de preços ao consumidor, o IPCA. 

— Quando gasolina e diesel sobem, há também um impacto indireto importante, já que o custo de transporte e logística aumenta, pressionando preços de alimentos, bens industriais e diversos serviços, por causa do frete e distribuição. Esse cenário tende a gerar pressão adicional sobre as expectativas de inflação, e também é algo que entra no cálculo quando se pensa em aumento dos combustíveis — ressalta Bruna Pacheco, especialista em mercado de capitais e sócia da GT Capital.

— Em um ambiente de inflação mais pressionada, o Banco Central passa a ter menos espaço para reduzir a taxa básica de juros ou pode ser levado a manter a Selic em patamar mais elevado por mais tempo — complementa a economista.

ANP investiga denúncias de falta de abastecimento

Nos últimos dias, produtores rurais gaúchos têm relatado falta de diesel em algumas regiões. Os relatos ocorrem em meio ao período de colheita de alguns dos mais importantes grãos para a economia gaúcha.

Diante dos relatos, a Petrobras informou no domingo (8) que não houve alterações na venda do combustível por parte de suas refinarias nos últimos dias, e que as entregas no Rio Grande do Sul estão ocorrendo "dentro do volume programado"

A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) afirmou que notificaria distribuidoras de combustíveis para prestarem esclarecimentos sobre a situação. De acordo com o monitoramento da agência, haveria estoque suficiente para assegurar o abastecimento no Estado, e o desajuste poderia estar ocorrendo no âmbito das distribuidoras. 

João Carlos Dal'Aqua destaca que os problemas de abastecimento de diesel no Estado são pontuais, e estão relacionais aos Transportadores Revendedores Retalhistas (TRRs), empresas autorizadas a comprar combustíveis a granel de refinarias e distribuidoras e revender diretamente ao consumidor final, com entrega própria. Os TRRs abastecem empresas, transportadoras, indústrias e fazendas, especialmente em locais de difícil acesso.

— Os TRRs que estão tendo maior dificuldade nesse momento para comprar combustível, pois muitos não têm contratos já definidos com distribuidoras, e já estão entrando em contato com os aumentos definidos pelas empresas privadas. Já ouvimos relatos de aumentos entre 60 centavos e 90 centavos no litro do diesel, por exemplo. Mas eu não acredito que possa ocorrer um cenário de desabastecimento de diesel aqui no Estado, o produto estará à disposição, mesmo que com um preço mais elevado, seja pelo mercado internacional, seja pelo reajuste pontual da Petrobras — ressalta o presidente do Sulpetro.
 

Edson Silva, da consultoria ES Petro, ressalta que a estatal tem ferramentas para garantir a oferta de combustíveis:

— A Petrobras tem capacidade de aumentar o processamento em suas refinarias e direcionar ao mercado nacional para compensar uma eventual diminuição temporária da importação dos combustíveis, caso esse cenário se mantenha por mais tempo, mesmo que a empresa diminua a exportação de seu excedente de produção.

Por que o petróleo está mais caro

O aumento do preço do barril no mercado internacional ocorre por algumas razões. O Irã é um dos maiores produtores de petróleo do mundo, e também detém o controle do Estreito de Ormuz, por onde passam cerca de 20% de todo o petróleo consumido mundialmente. Além disso, em razão da guerra e dos ataques militares, outros países produtores de petróleo da região, Como Kuwait e Emirados Árabes Unidos, diminuíram suas produções nos últimos dias.

Nota da Petrobras

Em um cenário em que guerras e tensões geopolíticas ampliam a volatilidade do mercado internacional de energia, a Petrobras reafirma seu compromisso com a mitigação desses efeitos sobre o Brasil. 

Isso é possível porque passamos a considerar em nossa estratégia comercial as nossas melhores condições de refino e logística, o que nos permite promover períodos de estabilidade nos preços ao mesmo tempo que resguarda a nossa rentabilidade de maneira sustentável. 

Essa abordagem reduz a transmissão imediata das variações internacionais para o mercado brasileiro, garantindo maior previsibilidade e segurança, protegendo nossos clientes de oscilações abruptas que se originam fora do país.

Dessa forma, a companhia segue comprometida com uma atuação responsável, equilibrada e transparente para a sociedade brasileira.

Por questões concorrenciais, a Petrobras não antecipa decisões sobre manutenção ou reajustes de preços.

Autor: Vinícius Sallet

Fonte: ZH

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